quinta-feira, janeiro 12, 2006

Paredes em branco

O quarto está escuro, na parede os reflexos das árvores iluminados pela lua, redonda e branca, se movem sem explicar o motivo, o vento não sopra. É, na verdade, uma daquelas noites de verão abafadas do nordeste. Quando se adormece o ar está pesado e úmido, mas quando se acorda tudo parece ter sido abençoado com uma fina camada de chuva, que ninguem viu cair, que ninguem ouviu chorar.
Menos ela, nos sonhos daquela garotinha tempestades urgem alimentadas por aqueles (assustadores) reflexos na parede branca. O lençol roçava na pele causando estranhamento a cada toque. Olho aberto ou fechado, nenhuma diferença fazia, a chuva, que tanto assustava e era tão desejada, estava ocorrendo dentro da pele da pequena garota. Apavorada, emudecida se convencia que os monstros do escuro, agora iluminados pela lua, nada podiam fazer contra ela e contra ninguem.
O calor aumentava junto com o desespero, o vento começava a soprar trazendo o cheiro do mar, cheiro salgado e azul. Enebriada pelo olfato e entregue à exaustão a garota adormece. E de dentro dela surge a tempestade que molha as plantas, a grama, o travesseiro. Aliviada ela sonha, aliviada ela vive mais um dia.
E o mundo acorda banhado em uma fina camada de chuva.

Um comentário:

Carolina disse...

Bonito isso Lu!
Bjo