sexta-feira, julho 11, 2008

Qual a cor dos nossos casacos?

Voltei a ter a, não tão correta, mania de ouvir conversas alheias durante as minha intermináveis viagens de ônibus pela cidade. Todo tipo de conversa já foi interceptada, a mãe doente, o celular novo, a moça que foi solta do seqüestro naquele pais e era presidenta do outro, acho que França,ne?? Bem, a verdade é que já ouvi de quase tudo. Certa vez uma consulta inteira sobre como manter a auto-estima e ainda assim fazer o ex-namorado voltar. Mas escrevo aqui para contar uma dessas conversas, uma que me deixou sem saber o que pensar.
Logo me chamou atenção a mãe e filha correndo, todas arrumadas, para entrar no ônibus. A pequena nada mais era do que uma reprodução em miniatura da mãe, com seu casaco rosa ao invés de preto, mas com o mesmo capuz imitando a pele de algum bicho. Ambas com botas longas de camurça por cima de uma calça apertada na mãe e quase vulgar na filha. Subiram satisfeitas por terem alcançado o ônibus e sentaram em uma das últimas filas de cadeiras, justamente atrás de mim. A menina muito animada falava muito, da mãe só se escutava uns Hãhãs claramente por obrigação - afinal deve-se ouvir o que as crianças falam, não é mesmo?.
A garota contava com forte entusiasmo quais eram os seus desejos se fosse presidente ou algo assim, primeiro eu diria para a policia não matar crianças, disse ela me fazendo prestar real atenção ao que dizia, já que entes minha escuta era mais displicente do que da própria mãe. Depois colocaria mais guardas nos parques para impedir que as pessoas jogassem lixo no chão, lembrando dos parques a garotinha de cor de rosa concluiu, construiria mais parques. A mãe grunhiu mais um hahã e eu me levantei - se aproximava o meu ponto - atordoada com o futuro (e com o presente) que vislumbrei ali sentada no ônibus sendo guiada por uma pequena garota cujo casaco ainda era cor de rosa.
Policiais que matam crianças, polícias que matam, mais polícia como solução, uma mãe que não se dá conta dos medos da filha... Bem, ao menos, ainda temos a necessidade de mais parques...

Um comentário:

Renato Tardivo disse...

um dia, será preto