Aquela poeira subindo, vontade de fechar os olhos, mas abro. Vou sentindo a vermelhidão tomar conta dos meus olhos verdes. Dói. Uma dor seca, a vácuo. Chega - eu grito. Mas o som se perde no cheiro desértico da poeira vermelha.
Cansei se me sentir assim, parece que se esse cavalo, de uma hora pra outra, resolver parar, eu vou preferir ficar lá, parada, na mesma posição em que for deixada. Sem forças pra sentir, sem forças pra chorar.
A imobilidade.

Basquiat
Poema de Natal
Vinicius de Moraes
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
5 comentários:
"Ah, a imensa felicidade de não precisar estar alegre!"
Lu!!! Abraço bem grande!!!
Uma poeta.
Feliz Natal!!!!!!!!!
Feliz Natal também!
Um beijo,
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